segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Escolhas.


  
Eu sei. Algumas coisas são difíceis demais de entender ou aceitar. Algumas coisas fogem ao nosso controle e não há nada que se possa fazer.



Fazemos escolhas. E com cada escolha, vem junto uma conseqüência. Como um brinde. Às vezes, esperamos ansiosamente por ele, outras vezes, não era bem do jeito que imaginávamos, e nos decepcionamos. Em seguida, vem uma vontade louca de tentar mais uma vez, pra quem sabe ganhar um brinde melhor, ou então, desistimos e já não queremos mais saber dele. Em ambos os casos, nada anula o fato da escolha que foi feita: tentar ou desistir?


Somos totalmente e eternamente responsáveis pelas escolhas que fazemos. E não é culpa de ninguém se as coisas não saem como planejado, a não ser que queira dar a alguém uma culpa que é sua. Se é sua, faz dela o que bem entender. Vai da consciência de cada um.


A gente passa boa parte da vida ocupando nosso tempo em fazer escolhas, decidir coisas. Eu não tenho certeza se isso é bom ou ruim. É bom poder escolher e pensar ter total controle da situação. Mas é ruim saber que o que acontece depois é fruto e conseqüência dessa escolha que fez.


Algumas coisas fogem ao meu controle. Como, por exemplo, sentimentos. Os meus parecem possuir vida própria. Parecem ser livres e impossíveis de capturar. Fogem, se escondem e aparecem quando querem, me pegando desprevenida sempre que podem. Causam uma confusão tão grande em minha mente, impulsos involuntários e noites mal dormidas.


Decido apenas por transcrevê-los sem muita compreensão. De forma automática e sem premeditação ou planejamento. São como eu disse: livres. Fazem de mim o que querem e me deixam perdida, sem ação. São tantos que nem sobra tempo para reflexão ou entendimento. Tento entendê-los apenas quando se distraem em sua própria confusão. Mas não agora, não com a caneta na mão, que dessa forma é impossível.


O desabafo é constante e extremamente necessário. E nunca tem vírgulas ou ponto final, porque cada palavra, cada frase, é um ensaio para a próxima, que vem quando quer, explicando coisas que antes não tinham explicação e que sempre tem continuação.






20-02-2011


21:03

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Lembranças.




É estranho como um pequeno instante, talvez apenas poucos segundos, tem uma facilidade tão grande de recriar um filme todo de um momento, uma vida.


Algumas coisas que acontecem tem uma força tão grande que nem com muita vontade se consegue apagar. E algumas outras são, aparentemente, tão pequenas e insignificantes que tomam um lugar tão pequeno quanto o seu tamanho, e se escondem, de forma quase que imperceptível, a ponto de pensar não se lembrar dela, mas ela está ali, firme e forte, fazendo cócegas ou doendo tanto que nem se pode acreditar nelas.


E como medir o tamanho de uma lembrança ou sua importância?


E como saber qual o seu valor?


Acredito ser impossível contabilizá-las ou mensurá-las ao certo. Nunca conheci alguém que soubesse o tamanho ou a quantidade de suas lembranças.


Chego a conclusão que elas apenas são. Não temos o poder de escolha ou seleção. Nem ao menos controlamos. Assim é também com os pensamentos.


Então, seriam as lembranças brincadeiras pensantes? Seriam frases e imagens premeditadas ou sorteadas? Seriam sonhos reais? Ou os sonhos é que são lembranças de mentira?


Eu não sei. Não entendo a confusão disso tudo. As minhas lembranças são falhas e confusas, como uma TV em dia de chuva. Nem sempre acredito nelas, pois as confundo com meus sonhos, que parecem reais. E não tenho memória suficiente para diferenciá-los. Eles me enganam e me confundem, sempre que podem. Vêm do nada, sem controle, sem disciplina e sem limites.


Meus pensamentos, meus sonhos e minhas lembranças são como um só. Sem diferença. Pois não os escolho, não os controlo e não os entendo, igualmente.


E quando canso, eu que os engano e finjo. Finjo que lembro, finjo que sei e finjo que entendo.


Algumas coisas tem uma complexidade tão grande que se a busca pela compreensão for insistente demais o resultado é a loucura.


Então, eu só penso. Só lembro. Só sonho. Cada um a sua maneira. Como tem que ser. Nem sempre gosto. Nem sempre odeio. Nem sempre choro. Nem sempre sorrio. Cada dia é um ponto de interrogação, um anseio.


E me confundo a ponto de não saber o que é real, o que é sonho e o que é lembrança.


E mais uma vez, finjo.


Somente assisto os filmes que passam depressa na minha mente, acreditando que são reais, quando penso não estar de olhos fechados, dormindo.


Eles passam depressa, sem muita nitidez. Sem rostos, sem definições. Acredito serem lembranças, pois me parecem familiares hoje. Mas nem sempre é assim e minha convicção não é de durar muitos instantes. A maior parte do tempo é dúvida. É confusão. E, confesso, não ter muita paciência para isso. E busco o mais fácil: acreditar, apenas.


Acreditar que tudo é a mesma coisa. E que nada vai fazer sentido. E que nesse caso, a melhor coisa a fazer, é fingir mesmo.










18-02-2011


20:02 hrs.






d ^. ^ b - Death Cabie For Cutie
 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tempo.



Dia após dia imagens se repetiam, sem que ninguém as percebesse. Sem que ninguém desse a devida atenção. Todos os dias não passavam de rituais, que se repetiam, só o que mudava era o tempo ou as estações do ano. As mesmas pessoas, os mesmos trajetos que nunca se modificavam. Assim era sua vida: um conjunto de ritos repetidos e automáticos. Não se pensava para dar um passo, eram as mesmas árvores, o mesmo caminho, os mesmos passos, a mesma estrada e as mesmas pessoas de sempre. Pessoas com destinos entrelaçados de alguma forma, pessoas com muito e nada em comum. Mas o que é comum? O mesmo par de sapatos ou a mesma cor da camisa? A mesma função numa empresa ou a mesma quantidade de filhos? Seria a mesma canção ouvida em um par de fones auriculares e que ninguém mais sabe? Seria o mesmo ar que se respira ou o mesmo resfriado? O mesmo corte de cabelo ou a mesma cor predileta? O que significa comum? O mesmo trajeto repetido todos os dias?



O caminho é um só. É sempre o mesmo. São as mesmas pessoas, são os mesmos ternos engomados, são as mesmas camisas suadas, a mesma cor, o mesmo cheiro, o mesmo número de bancos da praça, a mesma quantidade de assentos. Só o que muda é o tempo. O tempo que cada um tem. E o seu era curto, apressado e sem tempo para perceber o seu cabeleireiro comendo um cachorro quente na barraca da esquina ou a sua faxineira no mesmo vagão do trem. O entregador de pizza caminhando com seu filho no colo ou o carteiro na fila do banco. O tempo não deixava ver o vizinho do padeiro na casa da frente ou o filho do porteiro no jardim do vizinho. Era difícil perceber coisas tão cotidianas. O tempo era curto demais para que prestasse atenção em coisas tão insignificantes. Só o que importava era chegar no horário. No horário para que? Só o que importava era cumprir seu horário. Cumprir com o tempo estipulado.


O tempo. O que é o tempo? É a velocidade em que correm os ponteiros do relógio? São os segundos desperdiçados que se utiliza num copo de água gelada? São os minutos apressados que leva para fazer uma refeição? São as intermináveis horas de insônia? São os números do calendário? O que é o tempo? Ele não sabia. Ele nem sequer tinha tempo para pensar nisso. Haviam coisas muito mais importantes para se preocupar. Como, por exemplo, qual gravata usaria na manhã seguinte. Talvez fosse melhor usar aquela com o nó já feito, para economizar tempo. Ou talvez fosse melhor tomar café no trabalho, para não chegar atrasado e não ter aborrecimentos matinais. O caminho levava apenas alguns minutos, passando por uma praça arborizada, em forma circular, passando por três semáforos e uma faixa de pedestre sem sinalização nenhuma. Mas ele preferia pegar um metrô lotado, sem janelas, sem paisagens, silêncio e corpos quentes lutando por espaço, apenas para economizar alguns minutos, que iam ser utilizados para elaborar um novo relatório, perdido no dia anterior por uma mancha de café, que o manteria acordado por mais tempo.


E pra que tudo isso? Para que o seu ritual diário se repetisse com sucesso, para que o tempo não fosse desperdiçado com coisas sem importância e sim aproveitado, com aquelas que realmente importam, como digitar um relatório, como dormir três horas por dia para que o dia dure mais e se possa ter tempo para uma reunião depois do expediente. Aproveitar o tempo para verificar seus emails e recados, para bajular seu chefe, para engraxar seus sapatos. Coisas sem importância, como olhar o sol pela janela, sentar no banco da praça e ler um bom livro, almoçar sem pressa, beber um copo de água cheio, ou amarrar os sapatos, dormir até tarde no domingo ou passear com o cachorro, levar os filhos na escola ou tomar um café da manhã decente. Isso tudo era perda de tempo, ficava pra depois, pra mais tarde. Ele não tinha tempo suficiente pra isso. Não tinha tempo para coisas sem muita importância e que ocupasse o tempo que tinha para fazer coisas que realmente importavam. Só o que precisava era de mais uma xícara de café e um pouco mais de tempo.






08/10/2010 21:43 hrs.


Ao som de: Going Nowhere – The Cure

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Estagnação.




Chovia lá fora. Era possível ouvir as gotas caindo e batendo em cada poste, em cada carro em movimento e em cada guarda-chuva colorido.




Dentro daquela sala, esforçava-se para prender a sua atenção, buscava algo que conseguisse prendê-la e segurá-la forte para que não escapasse. Em vão. Sua mente encontrava-se perdida, viajava por muitos lugares e, ao mesmo tempo, não estando em lugar algum.


Pensava e imaginava o que se passava do lado de fora, naquela tarde cinzenta, fria e triste. Sem poder sair, sem poder ao menos se mover, ouvia os ruídos do lado de fora, que despertavam a sua curiosidade. Lá dentro, só o que ouvia eram palavras perdidas, vazias e sem nenhum sentido sequer.


Seus olhos estavam pesados e aos poucos, distraidamente, iam se fechando. Lutava para mantê-los abertos, mas seu corpo já não lhe obedecia mais, pensava e agia por si próprio, contra sua vontade, sem se importar, sem pedir licença.


Distinguia-se do resto das coisas ao seu redor. Das pessoas mudas, alienadas e com cabrestos que as impediam de ver o mundo ao redor delas. Só o que existia era aquele cubículo: pequeno, abafado e branco.


Sentia sono e uma vontade incontrolável de sair dali. Olhava em volta e só via olhos que não piscavam e sorrisos falsos tatuados nas faces dos outros seres. Não aguentava mais. Olhava no relógio e os ponteiros não se moviam. Olhava o céu, pela janela, e a noite não chegava. Era tarde de chuva. Era noite, o dia todo. E trovejava. Podia ouvir os gritos assustados do lado de fora. Mas sua vontade era sair. A chuva impedia todas aquelas pessoas, mas ainda assim queria sair. Queria correr com os pés molhados, olhar para o céu e ver a chuva cair, sentir o vento gelado e a água molhando os seus cabelos. Queria lavar sua alma, suja, poluída e que pesava cada vez mais.


Sua cabeça doía, latejava. Seu corpo, contraído, desconfortável e inquieto. Não queria mais pensar, não queria mais nada. Aquilo tudo não era o bastante e incomodava sempre e o todo tempo. Mas não tinha coragem suficiente para sair, mesmo que ninguém notasse a sua presença ou sentisse a sua falta. Rendeu-se então a fraqueza de seu corpo e seus olhos, que fecharam-se, então, até a chuva passar.






24-09-2010 – 16:02 hrs.


Ao som de: Try your Best – Kaiser Chiefs

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Inverno.



O futuro é incerto. Ele não existe. A sua história ela mesma fazia. E traçava, lentamente numa simples folha de papel. Reciclado. Recriando todas as palavras e letras que sabia. Nada fazia sentido e tudo era incerteza.



Mais um inverno se aproximava e ela esperava o verão chegar. O vento era gelado e trazia certa melancolia que inibia qualquer vontade de levantar da cama e largar aqueles pensamentos sem sentido, atormentados por sonhos vagos e idéias alheias, que lhe perturbavam o sono e não desgrudavam de jeito nenhum. Não gostava do frio e daqueles pensamentos associados a ele. Mas nada explica sentimentos ou lhes dá algum significado ou consideração.


O seu tormento era existir. Isso não lhe bastava e a atormentava dia, noite e madrugada, naquela cama gelada. Não se contentava com uma vida qualquer, sem sentido algum, sem expectativas e perseguida por coisas que queria esquecer.


Era inverno de novo. Ela preferia a primavera. Nem frio demais, nem calor demais. Tudo parece (re) nascer. O inverno apaga a esperança cultivada no outono e nada mais resta, até que uma nova vida surge na próxima estação, e sobrevive por todo verão, na esperança de durar até o outono acabar. Mas isso nunca acontece. A esperança acaba. E é um ciclo infinito de desilusões, esperando outra estação.


E era assim com ela, todo o tempo. Criando expectativas para que crescessem e virassem desilusões. Nada renascia, era tudo sempre igual e do mesmo jeito. Era sempre a mesma coisa, o mesmo ciclo. E a culpa era dela. Somente dela. E de mais ninguém. É mais fácil quando se tem a quem culpar, livra-se de uma frustração inevitável e a consciência não pesa. Mas e quando não depende de mais ninguém? E quando a decisão que toma é o que vai decidir todo o resto?


Hoje começa o inverno e o futuro não existe. Tanto faz. Já não faz mais diferença, muito menos sentido algum. É inverno novamente e tudo é incerteza.


















05-09-2010


Ao som de: Stardust Galaxies – The Parlotones

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Prisão.

Andava de um lado para o outro de seu quarto. Enlouquecia. Trancada naquele cubículo, sem nada poder fazer. Não que não pudesse realmente, mas não havia nada a se fazer naquele momento.



Buscava distrações momentâneas e evitava olhar no relógio, que insistia em fazer um barulho altíssimo a cada passo de seus ponteiros.


Já não agüentava mais aquela agonia, aquele tédio e sua sensação de impotência. Sentia-se incapaz. Incapaz de sair dali. Incapaz de decidir se levantar da cama. Incapaz de decidir um rumo para sua vida.


A sua vida era sua. E depois de muito esforço para conquistá-la, o que fazer com ela?


Uma vida como aquela não tinha a mínima serventia. De nada adiantava viver somente pra si. Mas tinha feito sua escolha e era tarde demais para voltar no tempo.


Andava de um lado para o outro, naquele quarto. Pensava em milhares de coisas a serem feitas. E em milhares de coisas as quais havia deixado para trás. As quais havia deixado escapar.


Imagens lhe cercava, trazendo à tona o filme de sua vida, como se estivesse sonhando sem ter dormido.


Os ponteiros do relógio pareciam não se mover. E todos os dias da sua vida eram todos iguais. E a culpa era só sua. Por nada ter feito, nada fazer e deixar escapar tudo aquilo que podia mudar sua vida.


Olhava pela janela, olhava ao seu redor e caminhava pelo quarto, cheio de recordações do passado, cheio de silêncio e do vazio que lhe tomava conta.


Pensava em sair. Mas havia pelo menos dez motivos que a impedia que o fizesse.


Pensava sempre no amanhã e de nada adiantava, pois o amanhã era sempre o hoje deixado pra depois e esquecido.


De nada adiantava pensar. Era preciso mais do que lamentos e vontades. Era preciso muito mais. Muito mais do que mover os ponteiros lentos do relógio.


Andava de um lado para o outro de seu quarto e pela janela, via a vida passar.










28-08-10


Ao som de: For Martha – Smashing Pumpkins

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Fim de tarde.



Seu espelho refletia o seu olhar aflito, confuso e perdido. Buscava em seu reflexo respostas para as suas perguntas não feitas.



O sol batia forte na janela de seu quarto e refletia seu rosto no espelho, brilhando, pois ainda estava molhado por suas lágrimas, que ainda caíam, mesmo que diminuídas.


Diminuída. Era assim que se sentia. Como que domada por suas emoções e aflita por não poder controlá-las, confusa por não entendê-las e perdida, por não saber o que fazer.


Sua mente tinha como passatempo preferido perturbar-lhe os sentidos. E tirar qualquer sentido que houvesse. Sentia-se limitada e sem nenhuma vontade de sair ou cumprir com qualquer obrigação. Apenas olhava o sol que batia na janela e refletia seu rosto. Olhava fixamente. Como que em busca de uma explicação.


Ouvia o som do silêncio e sentia aquele calor gostoso do sol que atingia seu corpo e aquecia em meio aquele frio que fazia.


Na parede, um violão, encostado, abandonado e todo cheio de poeira, como alguns livros e outras coisas mais, esquecidas por muito tempo.


Se sentia só, como aquele violão, abandonado. O silêncio era constante e qualquer ruído lá fora ecoava no resto da casa. Vazia. Como se nunca houvesse existido a presença de qualquer outro ser.


Sentia-se sozinha e tinha medo da noite chegar. O silêncio da noite era ainda mais assustador. Olhava para o telefone e janela afora. Nada. Nenhum sinal de vida dentro ou fora de seu quarto. O medo da solidão trazia pensamentos que gostaria que não existissem. O medo da noite chegar fazia acender a luz do abajur ainda de dia, caso se distraísse e a noite chegasse sem avisar.


Sentava-se em sua cadeira e nada mais acontecia. Não se movia. Não vivia. Apenas pensava naqueles pensamentos infelizes e sem sentido algum, que não se orgulhava e queria esquecer. E olhava o seu reflexo no espelho, brilhando à luz do sol na sua janela.


E decidiu não pensar em solidão e abandono. Olhou o violão na parede e segurou-lhe como há muito não fazia. Com um leve sopro, tirou parte da poeira e tocando, suavemente por seu corpo, foi se lembrando de momentos esquecidos, presos em seu subconsciente. Cantarolou uma canção qualquer e fechou seus olhos, decidindo esperar a noite chegar. Era fim de tarde e o sol batia em sua janela. Refletia seu rosto no espelho e secava suas lágrimas. Já não era só silêncio, mas a solidão era a mesma de antes. A noite chegaria mais cedo ou mais tarde.














17-08-2010


Ao som de: Dias Iguais (com Nerina Parllot) - Sandy

domingo, 5 de dezembro de 2010

Mesmice noturna.


Todas as noites eram sempre iguais. A mesma luz, do lado de fora, que não se apagava. A mesma dificuldade para encontrar o sono, perdido em algum lugar de seu quarto. Os mesmos pensamentos, incessantes e inquietos.



Seus pensamentos gritavam até pulsar em sua cabeça, que doía. Já não sabia mais o motivo dessa dor. Aliás, motivos era o que não lhe faltava, de modo algum.


Seus pensamentos, misturados e enlouquecidos, eram de quem não tinha o que pensar. Aqueles que cantam, recitam, sonham e conversam entre si. Pensamento que é quase sono, distraído.


Mas o sono não vinha. Sonhava acordado. Sonhava sem ter dormido. Escutava todos eles, frequentemente, excitados, escandalosos. Cantando canções e fazendo tudo ter trilha sonora.


Seus sonhos se misturavam. Sonhos antigos, sonhados há muito tempo e que ainda eram recentes. Seus sonhos se misturavam até que duvidava da realidade e do acontecimento das coisas. Pensava que tudo ia ser diferente assim que acordasse, que tudo não havia passado de um sonho, um filme ou uma ilusão qualquer.


Mas o sono não chegava. Apenas sonhava acordado. E vivia essa realidade duvidosa, em que não se sabe o que é verdade e o que não é. Em que tudo parece sonho, ilusão. E não se acorda, pois não se dorme. Apenas se ouve as canções novamente e o tempo todo. E se perde o medo da mentira.


Não existiam mais palavras. Nada e nem ninguém poderia descrever aquela estranha sensação que, além de incomodar, atormentava e doía todas as noites. E aquela luz lá fora parecia que nunca ia se apagar.


Não queria mais pensar em nada. Mas não pensar é um refúgio temporário. Não adiantava fugir. Apenas se finge a inexistência de uma coisa que já existe.


Encontrava-se só. Sozinho e perdido em seus pensamentos e sua falta de sono. Sua cama era gelada e brilhava uma luz do lado de fora, que espantava seu sono, cada vez mais.


Não havia cortinas nas janelas. Talvez se houvessem cortinas haveria sono e, quem sabe, dormir seria a melhor maneira de se confortar. Ou talvez não houvesse maneira de conforto.


Aquela solidão em que se encontrava era mais um momento de reflexão forçada. Colocar em dúvida suas próprias convicções. Ou talvez colocar a prova.


Era confuso. Pensar e repensar. Não podia decidir, não podia escolher e não podia julgar. Se sentia incapaz e só. Parecia que todo esforço a que tinha se dedicado havia sido facilmente em vão.


Seus pensamentos gritavam alto demais. Acreditava que impedindo-lhes de criar asas, arrancando-lhes toda liberdade, matando-os e os privando de viver, desse modo, eles deixariam de existir. Tolice. Era impossível dominá-los. Eles, todos eles, possuíam vida própria. E gritavam cada vez mais alto.


Já não podia agüentar aquela solidão. Aquela dor. Aquela falta de sono. Aqueles pensamentos. Aquelas canções que se repetiam. E aquela luz acesa do lado de fora.


Já não agüentava mais. Não podia agüentar aquilo se repetindo noite após noite. Era tudo tão repetitivo e constante. Já não tinha paciência. Tudo que houve um dia, havia desaparecido junto com seu sono.


Só havia duas alternativas: comprar cortinas ou fechar os olhos e dormir, de uma vez por todas.


E não havia refúgio. Qualquer refúgio seria temporário, como todas as outras vezes. A única coisa que queria de verdade era dormir e esquecer aquela luz acesa do lado de fora.


Até que seus olhos foram se fechando, lentamente, e tudo foi desaparecendo. E lá fora, a luz se apagou, pouco a pouco, até que nada mais restou a não ser o silêncio infinito daquela noite.














12-16/08/2010


Ao som de: State of Emergency - Bjork

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

(Re) Nascimento.



As pessoas não têm controle algum sobre as próprias emoções. Ele pensava ser forte e astuto o suficiente para enganar seu próprio destino, que tinha tudo premeditado. Cada um vê somente o que quer ver. E nada acontece por acaso.



Chegou a pensar que nada mais tinha sentido. Chegou a pensar que nada mais valia à pena. Todos os dias se questionava sobre o porquê das coisas e da sua existência. Nada mais fazia sentido algum. Seria o final da história? O final da sua história?


Os finais inexistem. Só o que existe é o recomeço. É tudo parte de um ciclo.


Suas experiências, expectativas. Tudo em vão?! Ilusões. Decepções. Recomeço. Não existe final. O final de sua história era apenas o começo de outra. E por onde começar? É tudo sempre tão igual, desde o começo até o final.


Ele se sentia perdido, aflito, eufórico. Mas uma nova esperança acabava de renascer. Quem sabe dessa vez tudo podia ser diferente. Quem sabe dessa vez, nessa nova vida, alcançasse tudo o que sempre sonhou.


Só o que ele não tinha se dado conta era que cada dia era uma pequena vida. E ele já tinha perdido muitas delas. Na verdade, sempre que podia. Será que teria uma nova chance?


Era preciso que ele mesmo o julgasse. Só mesmo ele poderia se dar uma nova chance, tentar tudo que não tentou, tudo que esqueceu, deixou passar. Era complicado demais. Quem é capaz de julgar a si mesmo, adequadamente, sem levar em consideração o benefício próprio?


Ele não achava que era capaz de tanto. Para ele, sua vida inteira e todas as pequenas vidas não passaram de mera tolice. Traquinagem do destino. E era a hora de brincar mais uma vez, de renascer e maquiar sua própria realidade de conto de fadas. Mais uma vez.


Nasceu.






13-08-2010


Ao som de: Sad Piano - Cibelle

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

À luz do sol.

A luz do sol, que ultrapassa a janela, luta para secar suas lágrimas, que correm, rapidamente, por sua face, que brilha. Ela foge da luz e esconde seu rosto, procura a sombra, talvez por medo, talvez por vergonha de ser notada ou talvez por não querer que suas lágrimas sequem assim. As lágrimas secas simbolizam o sofrimento acabado, o que parece estar longe de acontecer. O seu rosto, inclinado, se apóia agora sobre o seu braço, cansado, que luta pra suportar, sozinho, todo o peso de sua dor. E o seu olhar agora se fixa do lado de fora da janela, vendo tudo passar e sua vida sendo a mesma de antes.



A mesma vida de quando sentou naquele banco, há poucos minutos. A mesma vida que ela gostaria de esquecer, pelo menos por um instante sequer. A mesma vida, sofrida, que parece só ter obstáculos, nunca vitórias. A única vida que ela tinha, mesmo sem se orgulhar. Mesmo sem poder escolher. A única vida que tem pra viver.


Talvez ela quisesse ter o poder de fazer passar sua dor, sua vida e sua angústia tão depressa quanto as imagens à sua janela. Aquelas imagens diversas, sem ter tempo pra refletir bem sobre elas, sem ter tempo para entendê-las e visualizar com nitidez, apenas vendo passar corrido, como que adiantando um filme e, simplesmente, parar no momento desejado.


Ou talvez ela simplesmente olhe e sinta que nada pode fazer. As lágrimas não curam. Só a faz lembrar-se da ferida aberta, que dói, que sangra, e que parece que nunca vai cicatrizar. Só molha o ferimento e impede de fechar.


A sua ferida é profunda, parece ter anos ou talvez apenas alguns minutos. As lágrimas são recentes, mas o seu olhar, as suas marcas de expressão e seu sorriso que não existe mais, são de muito tempo.


O seu olhar e expressão sofrida comove e intriga as outras pessoas a sua volta. As faz chorar por nada poder fazer, ou talvez por remorso por ter a deixado ir embora sem lhe perguntar seu estado ou ter feito algo por ela. As pessoas se identificam e choram. E sentem a mesma dor. E a entendem profundamente, pois sentem a mesma dor, assim como ela, todos os dias. E se perguntam e refletem sobre essa imagem, repetida, dia após dia, no mesmo banco e na mesma janela. Ou pelo menos isso aconteceria, caso alguém a notasse. Caso alguém percebesse a sua presença tão banal e tão insignificante.


Ela acorda todos os dias, senta no mesmo banco, na mesma janela e nada acontece. Ela viaja de costas, como que buscando resgatar algo que já foi e não volta mais. Como que esperando que sua vida regresse e ela possa reviver qualquer segundo já passado. Ela viaja de costas na esperança de que ninguém a note e que alguém se importe. Se lamenta, leva as mãos à cabeça, enxuga seu rosto, vermelho, molhado, com o semblante franzido e inchado, de tanto chorar. Enxuga o suor de sua testa e aprecia o vento. Uma brisa suave, leve, que movimenta lentamente seus cabelos, presos, como o seu choro, pra que ninguém ouça. Ela fecha seus olhos e pensa sobre tudo o que passa e ela não pode fazer voltar. Ela percebe a velocidade e fecha seus olhos a fim de esquecer. Ela fecha seus olhos e não quer ver. Mas tem que encarar. Não se pode ficar pra sempre no mesmo banco e na mesma janela.


Não há o que fazer. O sol bate à janela, mas não consegue secar suas lágrimas, nem com a ajuda do vento, suave. Ela se levanta e caminha, lentamente, meio que perdida, sem rumo certo. Ou talvez ela não queira chegar ao seu destino e adie sua chegada o máximo que puder. Mas ela não pode fugir pra sempre. E todos os dias ela irá sentar no mesmo banco e na mesma janela. E ninguém a notará chorando, enxugando as lágrimas discretas, o seu olho avermelhado e seu semblante cansado.


Nada cura a dor de um sentimento que não existe, pois ninguém mais conhece.






11-08-2010


Ao som de: Silver Stallion – Cat Power