domingo, 19 de janeiro de 2014

Noite.




Eu gosto da luz do dia.
Do lado de fora de casa.
Eu gosto de ver a tarde chegar.
E o sol ir se escondendo.
Mas não gosto do sol de meio dia.
Eu gosto do pôr do sol.
Da noite, gosto das luzes amareladas da cidade.
Gosto de ver os pontinhos de luz, distantes.
E ver eles se apagando, quando a madrugada vem surgindo.
Só não gosto do escuro.
Quero sempre estar dormindo quando ele chega por completo.
Mas, às vezes, quem não chega é o sono.
Minha insônia fez parceria com os pernilongos da minha casa.
Ambos me querem com medo, no escuro. E acordada.
Talvez, se eu cansar bastante durante o dia, o sono chega mais rápido, feito criança.
Às vezes funciona. Às vezes, não.
Eu gosto de sentir o vento no meu rosto, no meu cabelo, em um dia que fez bastante sol e no fim da tarde alguém diz: “Ainda bem que não choveu hoje, né?!”
Nesses dias o vento é geladinho e faz a gente esquecer de puxar assunto depois.
Faz com que o silêncio não incomode.
E quando o silêncio não incomoda, as canções soam mais altas, mais gostosas.
Quando o silêncio basta, um olhar é suficiente.
Quando o silêncio existe, o coração pensa alto... depressa.
E quando o coração pensa, ele fala.
Nunca fica calado e parece tagarela demais.
Quando o coração fala, as imagens na janela correm mais depressa também. Ficam sem importância.
E eu, sem jeito.
Pareço me aprisionar, com os olhos parados. Mudo também.
E a percepção do tempo é outra.
As horas passam e eu nem vejo.
As estações passam, eu nem vejo.
A vida passa e...
A noite chega.
O sono não.
Que horas serão agora?

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Solidão.



Estou usando a solidão para me conhecer melhor.
É comum evitar a nossa própria companhia por muito tempo.
Acho que é porque assim não se pode evitar escutar os próprios pensamentos.
E alguns pensamentos a gente não se orgulha, tem vergonha ou quer esquecer.
E sozinho não dá.
Não dá pra evitar ou esquecer.
Só dá pra ouvir.
E é na solidão que a gente se conhece melhor.
Porque é impossível não olhar pra si mesmo.
É impossível não se ouvir, não se ver e não sentir.
E tudo aquilo que a gente teima em evitar ou esconder
A solidão evidencia.
Sem se importar com o motivo da recusa.
Seja por preguiça, por cansaço, medo ou por não saber lidar.
Ficar sozinho é encarar de frente um dedo apontado na cara
E verdades que a gente teima em não escutar.
Porque é sobre a gente mesmo.
E é difícil ter alguém dizendo que a gente está errado.
O ser humano, em geral, odeia estar errado.
E odeia não saber lidar com o Desconhecido.
Daí, o natural é fingir que nada está acontecendo,
Que tudo está sobre controle.
Mas quando se está sozinho
 Não há quem impressionar.
Não há como esconder.
E não há como fingir.
E por isso a gente sofre.
Sofre por estar sozinho sem saber por quê.
E, talvez não seja falta de companhia.
Talvez seja por estar em companhia de si mesmo.
E isso, é incrivelmente difícil.
Ninguém gosta de encarar a si mesmo.
É melhor evitar.
 É melhor...



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Sono perdido



Eu gostaria de ter um botão de ON/OFF na cabeça.
Às vezes eu gostaria de poder desligar meus pensamentos.
Eles nem sempre são confiáveis.
E ninguém devia confiar muito nos próprios pensamentos.
Principalmente se estiver com sono, mesmo que sem dormir.
Principalmente sem dormir.
Dormindo a gente perde a razão.
E ganha inconsciência.
Meio dormindo, meio acordado a gente tem meia razão e meia consciência.
Ainda assim traiçoeira.
E o inconsciente venenoso e consciente racional brigam a noite, a madrugada e a manhã toda.
Não te deixa dormir e te confunde.
 E faz você perder um sono que nunca mais vai achar.
Mas em compensação ganhar algumas rugas, úlceras e dores de cabeça.
De pura preocupação.
Preocupação de coisas sem motivo.
Ou com motivos de sobra.
Mas não faz muita diferença quando não se sabe administrar.
E como acreditar que o todo poderoso cérebro é só um órgão como outro qualquer?!
Nós o alimentamos, sem pensar, até ficar gordinho.
E depois forçamos uma dieta.
E qualquer reeducação alimentar é difícil pra qualquer instância do corpo, não é mesmo?
E a prática leva ao hábito, não é?!
O que fazemos sempre vira costume.
E equilibra as coisas.
Não é?!
Mas por que, então, tem tanta gente alimentando os cérebros malucos durante a noite, com pensamentos nocivos e confusões pensamentares, que a gente sabe, não levam a lugar algum?!
Por que então é tão difícil desapegar daqueles pensamentos que deviam passar depressa?!
Por que então não é possível se anestesiar com o sono e não pensar?!
Por que então a gente pensa, mesmo sem querer pensar?!
E por que então a gente tenta controlar os pensamentos se sabe que não é possível?!
E como se livrar de pensamentos que a gente não quer ter e que incomodam, pinicam e coçam demais?!
A culpa é dos astros mesmo.
Só pode ser.
Mais de uma pessoa essa noite não dormiu, pensando.
Na vida. Em nada. Em trabalho. Em questões existenciais. Em amor.
E como não alimentar um pensamento?!


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A gente tá sempre aprendendo a viver....

A gente tá sempre aprendendo a viver.
Num tem receita de bolo.
Todo dia é uma tentativa de tentar ser melhor...
E é normal não saber...
A gente nunca tem respostas...
Mas eu acredito muito que são as perguntas que nos movem...
E que perguntas você anda se fazendo?
E que perguntas andam me movendo?
Às vezes eu acho que as perguntas que nos movem são pura imaginação.
Não são na real o que a gente precisa olhar de verdade.
E se a gente prestar atenção nas perguntas que a gente nunca tem coragem de fazer?
Do tipo...
Por que?
Do que você tem medo?
O que muda?
E se for assim mesmo?
O que você é capaz de fazer?
Será que a culpa não é sua mesmo?
Será que não é só uma desculpa pra não assumir a culpa?
O que você está sentindo?
Qual é o problema?
Faz sentido pra você?
E mil outras perguntas que só pertencem ao universo particular de cada mente perturbada,
Mas que no fim das contas são sempre as mesmas.
Porque o que é importante, importa a todo mundo.
As mesmas dúvidas, os mesmos medos e inseguranças.
E será que a insegurança não é só o medo de falhar?
Às vezes, acho que a gente acaba colocando a culpa nos outros, por não querer admitir.
Por não querer se culpar.
E às vezes a culpa não é de ninguém mesmo.
Só acontece.
Acho que quando a gente desconfia demais das pessoas, na verdade a gente desconfia da gente mesmo sabe?!
 De tipo "será que eu consigo fazer isso?!"
 Daí a gente meio que culpa o outro, inconscientemente, porque é mais fácil, tipo "eu não faço isso por causa de fulano".
Quando, na verdade, pode ser: “Será que eu vou ser capaz de fazer isso?!”
E o medo de não ser capaz é maior que qualquer outro medo.
E daí a gente começa a criar desculpas pra não admitir,
Coloca no outro uma culpa que é nossa...
Ou, simplesmente, se recusa a ver o que está bem diante dos olhos.
Por medo.
Sentir medo não é ruim.
Assim como qualquer outro sentimento.
Mas o que a gente faz com ele?!
Isso é o que realmente importa.
Ficar quieta, com dúvida é a pior coisa...
Ela corrói o pensamento da gente
Mas certas coisas vão além....
Vão além de uma simples conversa e um ombro amigo...
Só dá pra tentar entender, sorrir e dar um abraço.
E dizer: “Olha, tô contigo!”
Acho que já é alguma coisa.
Às vezes tudo que a gente precisa é saber que tem alguém que pensa do mesmo jeito que a gente, que concorda.
Saber que a gente não tá doido!
E às vezes é só do que a gente precisa pra aguentar as coisas que só a gente mesmo pode aguentar...
Sem receita de bolo.
Sem conselho ao pé da letra.
Sem desespero.
As coisas vão se acertando, de um jeito ou de outro...
Mas...

“Aaaahhh, se as pessoas viessem com manual de intrução!”

Aaaahhh, se a vida viesse com manual de instrução...


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Fingindo entender...

Silêncio.
Silêncio nos lábios.
Mas o pensamento grita.
Como de costume.
E não deixa em paz, não deixa dormir, não pára de sonhar.
Como se costume.
Música de fundo. Bem calminha.
Com algumas lembranças, às vezes.
Outras vezes, não.
Certas coisas tem somente a razão de não ter?
Ou a gente acaba por desistir de encontrar razão?
Hoje fico em dúvida.
Às vezes, é mais fácil aceitar.
Deixar as coisas como estão.
Dá trabalho pensar, mudar, reconstruir, decidir, pensar...
Dá trabalho e a gente cansa rápido.
Então é melhor sempre deixar pra depois, pra amanhã, pra lá...
E fica assim.
Exatamente como está.
E o “como está” não me satisfaz.
Mas nada muda se a gente não mudar.
E não é mudar somente, é acreditar, concordar, escolher.
Sem mentir pra si mesmo, fingindo estar tudo bem quando não está.
Fingindo entender.
Fingindo...
Fingindo...
 E fingindo que não finge.
Eu finjo, às vezes.
Finjo que está tudo bem, pra ter forças, não desistir.
Dar forças, sorrir...
Mas é difícil demais.
E, às vezes, tenho que fingir.
E finjo que não finjo.
E acredito.
Pra quem sabe aguentar de verdade.
E nisso, descubro ser mais forte do que pensava.
Mas não gosto de deixar as coisas pra lá.
Não gosto de assuntos mal resolvidos, banhos de gato ou café pela metade.
Eu gosto de ser inteira.
Mesmo que isso custe algumas lágrimas.
A gente corre o risco...
Eu não gosto de fingir que nada acontece.
 Mas, às vezes, finjo...
Pra ter força, sabe?
Mas, às vezes, dói.
E não sei como fingir que não sinto.
Sou transparente demais...
 E fracote demais...
Pra não sentir...
Pra fingir demais...
Pra mentir por muito tempo.
Não consigo.
Não posso.
E não quero.
Prefiro falar a verdade.
Prefiro admitir fraqueza.
Admitir derrota.
Admitir lágrimas.
Que é pra doer um pouquinho menos.
Até que a dor vai passando...
E quase não dói.
E finjo que esqueci.
Que não existe.
Que passou.
Às vezes, funciona.
Às vezes, não.
Nada que não seja verdadeiro se sustenta por muito tempo.
 Nem o amor.
Ah, o amor...
Eu não sei falar de amor.
Já disse isso?!
O amor é complicado demais.
A vida é complicada demais.
E a gente finge ter o controle sobre as coisas.
Só que não dá.
Dá pra escolher.
Controlar não.
E escolher não é dominar ou controlar o assunto.
É só tentar.
Ver se dá certo.
E ver se o errado é o certo.
Ou o certo é o errado.
Só que não dá pra saber sem tentar.
Eu tô tentando ser feliz.
Mas acho que, às vezes, não dá.
Mas eu finjo que dá.
E acredito.
E às vezes, dá.
Às vezes, não.
E fico pensando: Certas coisas tem somente a razão de não ter...
E talvez seja só pra confundir a gente mesmo...
A gente fica pensando, tentando solucionar os problemas do mundo
E talvez não tenha jeito.
Ou talvez tenha.
Mas dá preguiça e cansa.
Dá trabalho.
É arriscado.
E nem sempre vale a pena.
Então a gente deixa pra lá...
E vai empurrando com a barriga...
E até quando dá pra aguentar?!



terça-feira, 12 de novembro de 2013

Confusão!



Acho que confusão é um negócio que aperta a gente e a gente sufoca.
Parece que é uma mão que segura a gente bem forte e impede de pensar direito. 
É uma embolação de pensamentos que ficam competindo pra ver quem fala mais alto. 
E é uma competição onde todo mundo ganha. 
Acho que confusão é um negócio que tira a gente do eixo. 
Acho que tem o objetivo de tirar a gente do lugar, 
Mas tem o dom de fazer com que a gente deixe as coisas exatamente onde estão. 
Acho que confusão é um negócio que aperta o peito também, não só a cabeça.
Faz com que a gente se sinta perdido e sem chão, 
Atiça a imaginação. 
Limita a ação. 
Dificulta a compreensão. 
E venda nossos olhos. 
Ou melhor, nos cega. 
Nos muda (do verbo emudecer). 
E não nos muda, nos entorpece... 
Paralisa. 
Acho que confusão é um negócio carente demais pra deixar a gente quieto... 
Pra deixar a gente em paz... 
É um negócio que requer atenção, dedicação e exclusividade. 
Fica impregnado, grudadinho com a gente até que a gente acostuma. 
Só que nunca acostuma. 
Nunca acostuma mesmo. 
Aprende a conviver, mas incomoda sempre. 
E o tempo todo. 
Acho que confusão é um ser que tem vida própria. 
E não sei se é por maldade ou justiça, 
Mas parece sempre colocar a gente pra baixo. 
Faz a gente se sentir burro e indeciso. 
Faz a gente guardar o livre arbítrio no bolso. 
Faz a gente imaginar uma fé invisível 
 E faz acreditar que algo cósmico irá resolver todos os nossos problemas (que só a gente mesmo pode resolver). 
É um negócio que faz a gente não querer escolher, 
Não querer sair do lugar, 
Colocar a cabeça num buraco escuro, feito um avestruz. 
Confusão é um negócio sem explicação. 
E que a gente vive tentando explicar. 
E acho que confusão é um nó na garganta. 
Ou excesso de sentimentos que transbordam pelos olhos, 
Por não aguentarem mais existir do lado de dentro. 
Acho que confusão é um negócio que não existe, vive. 
E não se pode matar (independente da vontade). 
E confusão é um negócio egoísta, 
Que não está nem aí pra gente. 
E não sei se confusão é um negócio de verdade (de falar a verdade). 
Não sei se dá pra levar a sério. 
Não sei se é fruto da nossa imaginação, 
Apenas conflitos pensamentares, 
Ou decisões múltiplas, 
Questões de múltiplas escolhas, onde só uma é a correta. 
E não sei se existe resposta certa. 
Não sei. 
Mas acho que confusão é um negócio...



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Pra sorte chegar...





Pra sorte chegar eu cruzo os dedos.
Rezo sem acreditar.
Peço a alguém pra rezar.
Pra quem sabe funcionar melhor.
Olho o mundo ao meu redor
E não entendo.
Ou finjo que não entendo ou acredito.
Algumas coisas são simplesmente difíceis de digerir.
Cruzo os dedos, faço apostas.
Assopro um dente de leão qualquer.
Faço um pedido.
Jogo uma moeda num poço dos desejos.
Finjo que não tenho medo.
Se tiver chance, vale o que vier.
Se a sorte existir de verdade
Que ultrapasse a realidade
E bons ventos venha trazer...
Pra felicidade tomar conta
Todos os dias, se puder...
E se a sorte vier
Que venha trazendo amor...
Em tudo que for...
Que no fim das contas, é o que importa...
Prometo fazer minha parte
E que ela venha antes que seja tarde.
Fizemos um trato assim:
Espero por ela e ela espera por mim.
Cada um, faz o que puder.
E se ela vier,
Eu passo a acreditar...
E se minha parte eu fizer
Ela passa pra me visitar...
Hoje?!
Quem sabe...
Não adianta ansiedade.
Só vai atrapalhar...
E se a sorte chegar...

Eu vou...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Amor?





Ah, o amor!
“O amor é o tropeço do tempo.
É quando o tempo sai do seu compasso...”
Passa lento.
Ou nunca há tempo suficiente.
É dia frio, com sol quente.
É primavera em dia nublado.
É banco de praça, rodoviária, estação...
É vazio no coração.
É saudade que dói.
É silêncio que se entende bem, que grita.
É aguentar mau humor, dor de cabeça, dor de estômago.
É ouvir uma canção
E colocar pra repetir.
É quando todas as canções de amor fazem sentido.
É cantar no chuveiro...
É esperar o dia inteiro
Só pra dizer “oi”.
É escrever versos bregas
E canções dedilhadas...
É passar a madrugada
Acordado, esperando o dia chegar.
É sentir um aperto no coração, de longe.
E de perto sentir pulando, ora sufocando a garganta
Ora revirando o estômago.
É ter os pés quentinhos em dia frio.
É se sentir idiota, às vezes...
É ser brega, romântico e melado.
É querer alguém ao lado...
Pra dividir... pra compartilhar...
É comer sem medo de engordar.
É não ter vergonha de falar...
O que pensa... O que sente...
É o que conforta a gente
Quando tudo parece afundar.
É companhia pra conversar no banheiro.
É medo de perder, de arriscar.
Noite mal dormida, sem travesseiro.
É choro contido...
É não precisar chorar.
Ou chorar e ter um colo pra consolar.
É suspiro.
Distração.
Sonho.
Imaginação.
E não há palavra que descreva bem...
Ele só vem...
E a gente nunca sabe de onde...
O amor só é.
Mesmo quando a gente pensa não ser.

domingo, 29 de setembro de 2013

O que eu não posso esquecer...

Eu não tenho memória, mas tenho uma agenda.
Tenho anotações, datas, compromissos, e nas entrelinhas... Desabafo.
Escrevo o que me esforço pra lembrar.
Ou o que não quero esquecer.
Escrevo esperando que ninguém vá ler.
Escrevo mostrando tudo o que eu quero esconder.
Escrevo o que ainda não admiti em voz alta,
Mas o papel denuncia.
E é impossível esconder de mim mesma por muito tempo.
Tento esconder, fingir que não vejo...
Mas os pensamentos estão lá, o tempo todo...
Lacrados com fita crepe na boca.
Mas isso não é suficiente para sufocá-los... Para silenciá-los...
Meus pensamentos não adormecem...
E preenchem minha memória usando um martelo, que dá muita dor de cabeça.
Não sobra espaço pra mais nada.
Minha memória se apaga.
Parece que formatei a HD.
Mas está tudo lá, sou eu que não vejo.
Ou finjo pra mim mesma que não vejo.
Escrevo, talvez, para tirar o que não sai da cabeça.
Mas não adianta. Não some.
Mas escrevo.
Como se tudo fosse bem claro.
E releio.
E é tudo confusão.
E guardo segredos.
Os guardo na ponta do lápis.
Estão seguros.
Já não são mais meus.
Mas estão seguros.
Pois ninguém vai ler algo que só tem valor pra mim.
Algo que ainda estou tentando entender.
Faço desenhos na capa.
Anoto o dia do dentista.
Escrevo com letra feia.
Rabisco.
Que pros olhos curiosos,
Nada entendem.
Perdem logo o interesse. E se dissipam.
E meus segredos permanecem intactos... Seguros...
Guardados nas entrelinhas... Imobilizados com fita crepe...

Mergulhados em palavras mudas de covardia.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

E parece que nada muda...




O trem estava cheio, como de costume.
O meu olhar estava na janela, do lado de fora, como de costume.
O lado de fora sempre parece mais ameno.
Todas as pessoas com seus celulares e fones de ouvido, e eu, com o meu, como de costume.
Tudo era como de costume. Era um dia qualquer.
Entrou uma senhora, que parou logo na minha frente.
Ela parecia não ter dentes. Era bem pequenininha.
Eu, sentada no assento vermelho, não preferencial, demorei a percebê-la.
Percebi. Pensei em dar lugar.
Alguém ofereceu antes. Ela não quis.
Eu não ofereci.
Estava ocupada demais com os meus pensamentos e minha música particular.
Sai a senhora.
Entra um casal.
Quando foi que eles apareceram no lugar dela?
Não percebo o casal.
Percebo um cara sentando no assento a minha frente.
A mulher na frente dele lhe entrega sua mochila.
Ele não esperou para ver se ela queria sentar.
Sentou correndo.
Como é de costume a disputa de lugar pela manhã.
Ela lhe entrega a mochila e murmura qualquer coisa.
Me chama atenção, não sei porque.
Começo a reparar, assim, ainda com fone de ouvido.
Eles não se falam.
Eu logo percebo que eles são um casal.
Como é costume.
Acho um absurdo ele estar sentado, sem nem ter oferecido o lugar para ela.
Não carregou sua mochila e nem demonstrou qualquer consideração, ou cavalheirismo.
E isso me revolta por um instante. Me incomoda. E eu reparo nos dois.
Eles não conversam.
Ela olha pra ele o tempo todo.
Ele olha para baixo.
Pega o celular.
Começa a mexer. (Deve ser qualquer coisa, agenda telefônica, joguinho ou qualquer coisa que tire seu olhar da mulher a sua frente)
Ela começa a olhar. A esticar o pescoço para conseguir ver o que ele está fazendo.
Eu, com o olhar esquecido da janela e atento ao que está a minha frente, crio várias interpretações para a “cena” que acontece pra mim e que ninguém repara, como de costume.
Ele, logo se enche de mexer no celular.
Provavelmente pensa: “Que saco, essa mulher não para de me controlar!”
E pensa o quanto ela lhe irrita e segue seus passos.
Ele, sentindo sua privacidade ferida, sente-se invadido e sem espaço. Sufocado.
Ela, provavelmente, só quer saber dele. E começa a reparar no que ele faz e começa a desconfiar do porque ele esconde o celular: “O que será que ele está escondendo? O que tem de tão importante nesse celular que ele prefere ele e não presta atenção em mim?”
Ela se sente diminuída, enganada e excluída da vida dele.
Esqueço de mencionar:
Ele, com roupas largas, barba por fazer, cabelo bem curto. Boca escura de quem fuma muito. Cara de poucos amigos. Uma barriga saliente.
Ela, com a auto estima totalmente destruída, olhos tristes, gorda, boca escura de quem fuma também. Olhos atentos, pequenos, cabelo preso, mal penteado. Roupas largas. Mãos inquietas, esmaltes descascados.
Consigo imaginar os dois jovens, casando-se bem cedo.
Consigo ouvir os pensamentos dela: “Ele não era assim quando nos casamos...”
E os dele: “Preciso trabalhar muito pra pagar aquelas contas...”
E eles não se olham.
Bala de gengibre, um real.
Eles se olham.
Na verdade ela olha pra ele, num murmuro, como quem pergunta: “Você quer?”
Ele, indiferente, faz uma careta, levanta os ombros, murmura qualquer coisa também, como quem diz: “Tanto faz!”
Pega o dinheiro no bolso e entrega pra ela.
Ela, espera o moço aparecer. Pega a bala. Guarda o troco na mochila, no colo dele.
Oferece pra ele, ele nega, num outro murmuro.
Ela abre o pacote, pega uma bala e entrega o saco para ele.
Ele pega o saco, pega uma bala e guarda o saco na mochila.
Ele guarda o papel da bala.
Ela entrega o papel da bala pra ele.
Ele guarda o papel da bala.
Eles não se falam, não se olham.
Ela, numa tentativa de carinho, passa a mão em sua testa, arrumando ele.
Passa a mão por sua blusa e segura a manga, que é comprida.
Ele, fecha os olhos, como quem tenta dormir pra chegar logo ao destino.
Ela vai fazer um carinho, segurar em sua mão.
Desiste. Só segura a manga da blusa.
Eles comentam qualquer coisa.
Eu não escuto, estou com fones de ouvido.
Nem daria tempo de tirar para ouvir, foi muito rápido.
Devia ser algo sobre o tempo, o trem cheio, o destino que nunca chega ou outra coisa trivial.
Eu fico imaginando como as pessoas podem ser tão distantes.
Como tudo devia ter sido diferente quando casaram e foi-se destruindo aos poucos.
Como ao ver os olhos dela, percebi que ela só queria um pouco de atenção.
E olhando os olhos dele, percebi que ele só queria um pouco de espaço.
E olhando os dois juntos, percebi que eles só precisavam de um pouco de conversa.
Acho que as pessoas nunca mudam.
Elas casam e acham que tudo vai mudar, ou se entristecem quando vêem que tudo mudou.
A lembrança sempre é mais feliz mesmo.
E as pessoas não mudam.
A única coisa é que, com o tempo, elas param de tentar impressionar umas as outras,
Param de fazer coisas só para agradar,
Tiram a máscara que vestiram,
Pois não é possível se esconder o tempo todo.
Ninguém agüenta.
E olhando esse “casal”, percebi que minha revolta em não ser o primeiro casal a se tratar assim...
A minha revolta em ver a distância de dois corpos tão familiares e tão desconhecidos ao mesmo tempo...
A minha revolta em ver que o mundo que me cerca não me satisfaz...
É só porque não suporto ver como tudo é um costume... Não muda...
E não são eles, os casais, as pessoas que são diferentes e vivem um absurdo...
Sou eu... Eu sou diferente e não me encaixo nesse mundo...
E eu... Eu sou o absurdo pro mundo.
Sou eu, que deveria mudar.
Sou eu que deveria ter uma religião, um Deus.
Sou eu que deveria ver novela.
Sou eu que deveria ter um emprego de verdade.
Sou eu que deveria ter uma vida normal, como de costume.
Sou eu.... Que não sou o mundo que vejo, todos os dias do lado de dentro e do lado de fora da janela.
E tudo é como de costume...
E parece que nada muda...